Projetos de pesquisa vinculados

Conheça os projetos de pesquisa vinculados ao Observatório do Populismo. São projetos desenvolvidos pela nossa equipe de pesquisadores e pesquisadoras ou projetos com os quais o Observatório colabora no âmbito de parcerias diversas. 

Media, Populismo e Corrupção
Pesquisador Principal: Isabel Ferin Cunha | Co-pesquisador principal: Liziane Soares Guazina

Equipe: Ana Cabrera | Bruno Araújo | Carla Martins | Juliana Gagliardi | Marc Blasco Duatis

Financiado por

Apresentação

A Democracia é uma conquista quotidiana como mostra o avanço de regimes autoritários e populistas (Economist Intelligence Unit, 2020;  Freedom House, 2021). O projeto exploratório Media, Populismo e Corrupção (MPC) pretende contribuir para o reforço da Democracia e investigar a articulação entre media, populismo e corrupção, em Portugal (PT), no Brasil (BR) e na Itália (IT). 

O objetivo central é analisar as formas de comunicação política populista – baseadas em sentimentos antiestablishment, na simplificação de problemas sociais complexos e no antagonismo “nós versus eles”- nos media mainstream e nos media sociais, com ênfase no tema da corrupção. A grande ideia do projeto é analisar como o tema da corrupção é explorado como mecanismo de construção de estratégias de comunicação populista.

O problema de investigação é compreender como o processo de mediatização da corrupção se relaciona com a construção de discursos populistas de lideranças e movimentos, nos três países, e quais os desdobramentos dessas relações para a qualidade das respectivas democracias. De outro modo: de que maneira o tema da corrupção é utilizado na construção de estratégias de comunicação populista por políticos, por grupos partidários e pelos media, principalmente aquando da cobertura jornalística de eleições e outros atos de democracia. 

No contexto contemporâneo, a proliferação de múltiplas plataformas de comunicação em rede e de media digitais, a par da digitalização dos media mainstream, deram lugar a um ambiente informativo:i) intenso – em que se acelerou o fluxo de informação, ao mesmo tempo em que encurtaram os ciclos noticiosos; ii) extenso – em que se diversificaram formas de acesso à informação, independentemente da localização física dos sujeitos, potencializadas pelas comunicações móveis. 

Este ecossistema tem favorecido a emergência de fenómenos de comunicação e de atores populistas,  que mobilizam indivíduos e grupos para a construção de identidades político-ideológicas relacionadas à ideia de povo em oposição às instituições, utilizando para isso o tema da corrupção./Esta problemática é central para se debater o populismo como um fenômeno eminentemente comunicativo, que se estabelece no jogo de limites da liberdade de imprensa e expressão, na qualidade da informação e na quantidade de desinformação, impactando diretamente nas experiências de democracia e cidadania.

Urbinati (2019) afir­ma que o populismo pode ser entendido como uma política da parcialidade, onde o líder define, para si e para a sua ação política mobilizadora, qual é a parte boa, justa ou melhor do povo. O povo é somente aquela parte identifi­cada pelo líder como a “verdadeira” ou a merecedora de ser considerada como tal (Urbinati ,2019, p. 17). A democracia, paradoxalmente, para essas lideranças e seus seguidores, somente pode ser entendida dentro dos limites morais definidos por eles, excluindo todos os outros cidadãos que não compartilhem os seus valores. Assim, diz Urbinati, “a dinâmica do populismo é uma construção discursiva que prevê um porta-voz, ou um líder representa­tivo, que interprete as reivindicações dos grupos sociais insatisfeitos e as unifique em uma narrativa ideológica; e, sobretudo, em sua pessoa” (Urbinati, 2005, p. 19, tradução li­vre). Neste sentido, afirma a autora, “o resultado é que o populismo é um tipo de movimento que, para explicar o que o legitima e se apresentar como a voz do povo, precisa nomear os inimigos do povo” (p. 19, tradução livre). 

O aspecto moral que envolve a construção discursiva de povo versus elites nos discursos populistas tem, muitas vezes, o tema da corrupção como chave principal de ataques a adversários e até mesmo a concorrentes partidários, transformados em inimigos políticos. As hostilidades em relação às elites e instituições, a radicalização de conflitos políticos e o uso de apelos a sentimentos morais tem sido explorados na temática da corrupção em convergência com a comunicação de líderes e movimentos populistas. Serão objeto de análise os posicionamentos públicos de lideranças populistas e a sua cobertura jornalística, que tenham como tema principal a corrupção nos últimos cinco anos (2018-2022), em Portugal, Brasil e Itália. As análises de cobertura noticiosa dizem respeito às apropriações que o jornalismo mainstream faz da comunicação populista de atores e lideranças políticas sobre a temática da corrupção, bem como às estratégias utilizadas pelos  media, enquanto atores políticos. Neste sentido, buscaremos compreender como o jornalismo pode  acentuar  estratégias  comunicativas  populistas  a  partir da aplicação de critérios de noticiabilidade que enfatizam a emoção, o espetáculo e favorecem determinados perfis de líderes. Ao fazerem isso, no contexto das rotinas produtivas, o jornalismo pode servir operacionalmente como espaço de visibilização da lógica populista e de legitimação das reinvindicações dos atores políticos populistas.

Metodologia

O corpus de análise em PT, BR e IT será constituído por jornais/semanários em formato digital, jornais televisivos de canais abertos e amostras de Facebook, entre o ano de 2018-2022. A constituição do corpus de análise será constituída por: i) semanários/revistas e jornais diários dos três países. A seleção terá como critério a propriedade, o volume de vendas/circulação e o acesso digitalizado; ii) na televisão propõe-se a análise de jornais televisivos do prime-time, em canais abertos de grande audiência, em momentos políticos relevantes para a democracia;  iii) no Facebook, em PT, BR e IT, a construção da amostra irá recorrer à seleção de um corpus de análise, tendo como parâmetro momentos políticos relevantes, a partir de softwares específicos. Privilegia-se metododologias de análise de conteúdo, que permitirão a criação de bases de dados (Excel).Nos media sociais, incluindo nos meios digitalizados, a proposta é explorar a metodologia de análise multimodal web, que prevê a análise de temas; atores; imagens, ferramentas,  links, partilhas e outros elementos.

O percurso metodológico descrito pretende contribuir para refletir e aprofundar a estratégia de “análise hipermédia” proposta por Carlón (2016,2017), centrada na circulação de informação, ininterrupta, entre media mainstream e redes sociais. Tais análises permitirão identificar: i) os mecanismos de exploração da temática da corrupção nos discursos populistas; ii) o uso de informação/notícias falsas nos ataques contra os adversários ou out-groups (a partir da ideia de construção do inimigo); iii) as po­lémicas, os incitamentos ao ódio e ao conflito nos media sociais ; iv) as estratégias  media mainstream com o objetivo de ganhar visibilidade em manchetes de jornais, telejornais e revistas (mediapopulismo); v) os processos de viralização nas redes (popu­lismo digital) que visam influenciar a agenda pública na definição dos limites dos debates, ao  propor enquadramentos emocionais ou repertórios identificáveis pela população. E ainda será possível identificar: vi) mecanismos de mediatização da informação da desocultação da corrupção; vii) atores implicados nos casos de corrupção ao longo das diferentes fases, tais como advogados, banqueiros, homens de negócios, jornalistas, magistrados, políticos e outros. A análise de conteúdo dos media mainstream é imprescindível para desenvolver esta componente da investigação.A utilização das mesmas categorias de análise permitirão identificar temas e sub-temas, conteúdos em circulação, enunciadores e atores.

Resultados esperados

O projeto exploratório Media, Populismo e Corrupção constitui, no seu conjunto, uma contribuição teórica e empírica importante para a construção de um mapeamento da circulação discursiva do populismo e da corrupção, na sociedade contemporânea, tendo em consideração  potenciais novas configurações de poder na era digital, que emergem numa paisagem mediática descentralizada.

A execução do projeto envolve uma componente cívica e cidadã:  i) promover literacias mediáticas para a perceção do populismo e a relevância da corrupção neste fenómeno político; ii) efetuar ações de informação entre docentes e discentes do ensino superior, nomeadamente nas áreas de Comunicação, Media e Jornalismo; iii) organizar debates e ações de divulgação de resultados junto ao poder e media local; iv)  contribuir para identificar indicadores que influenciem a alteração de quadros legislativos e institucionais.

Em simultâneo ao desenvolvimento do projeto, os resultados serão apresentados em artigos e submetidos a candidaturas em revistas internacionais indexadas. Um seminário internacional será realizado na Universidade Nova de Lisboa em novembro de 2022, com a participação de convidados nacionais e internacionais. A par da relevância teórica e empírica, o problema de investigação do projeto exploratório MPC adquire valor social acrescido no contexto atual de erosão do regime democrático ocidental, onde o crime de corrupção é consensualmente entendido como uma das ameaças mais gravosas. 

Se até há alguns anos, a divulgação destes casos era entendida como uma forma de corrigir comportamentos ilícitos e reforçar valores no âmago dos regimes democráticos, no contexto atual de crescente desconfiança, os casos de corrupção alimentam a descredibilização dos sistemas políticos, judiciais e mediáticos e a emergência de populismos e regimes autoritários, num ecossistema cada vez mais permeável à desinformação digital (Freedom House, 2018, 2019, 2020, 2021).

 

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